Era Verão ou Primavera, e eu passeava pelo jardim. Aproveitara aquela hora mais fresca para levar a minha cadela, a Narcisa, a aliviar-se. O jardim era mesmo em frente do meu prédio. Um belo jardim cheio de árvores, e tantas outras plantas esplêndidas e cuidadosamente tratadas. Por consequência deste denso bosque a zona onde vivia era mais fresca e resguardada, fosse Verão ou Inverno. Aqui cumpria o meu sonho de viver numa casa de campo, uma silenciosa e protegida casa de campo.
Fui mergulhando naquele pequeno mar verde, onde me sentia como um peixe rodeado de coral. Segui numa caminhada de quase uma hora, com algumas paragens, é certo, mas o meu ainda jovem corpo já se ressentia. Sentei-me num banco de madeira, os típicos bancos de jardim, que se encontrava diante do parque infantil. A energia daquela pequenada era com um elixir para a alma, corriam, saltavam, riam, pulavam e voltavam a correr. Sorri por várias vezes enquanto assistia ás mais variadas brincadeiras.
Reparei, largos minutos após me ter sentado, que estava a meu lado, para além de Narcisa, uma rapariguinha, com não mais de dezoito ou vinte anos. Resolvi meter um pouco de conversa pois, visto ser freelancer há muito que não falava com ninguém, á excepção da minha mãe, que me ligava dia sim, dia não.
- As crianças são mesmo uma força da natureza, hein?
A rapariguinha olhou na minha direcção, mas não se pronunciou.
- Aquela energia toda dava-me imenso jeito nas minhas maratonas noite dentro para acabar este ou aquele trabalho... – insisti.
Foi então que a rapariguinha tirou da mala um pequeno bloco, com capa dourada, e começou a escrever.”Já meti o pé na argola”, pensei. A escrita durou largos minutos, até que esta rasgou a folha e ma deu para a mão.
“ Sou surda, penso que já reparou nisso, mas distingo ainda muito bem o que vejo. Sim, é verdade, as crianças são uma força da natureza, mas já reparou que são também a digamos classe onde se notam mais as diferenças? Onde por tu seres de raça negra e eu ser de raça branca não brinco contigo, ou onde por tu não teres este ou aquele brinquedo não sou teu amigo? Todos lutam pela igualdade de direitos, independentemente da raça ou religião, e, com a idade vamos tomando o nosso partido, começamos a tomar consciência de tudo o que nos rodeia, tornamo-nos autónomos e deixamos de nos contentar apenas com os dogmas que nos transmitem pais e avós, mas em tão tenra idade acha que estas crianças já tomam algum partido? Acha que não brincam com este ou com aquele menino só porque sim? As crianças são cruéis, ás vezes cruéis de mais, mas toda essa crueldade não é mais do que um reflexo do que lhes é transmitido consciente ou inconscientemente pelos próprios pais. É triste, mas é a verdade...”
Li aquilo duas, três, quatro vezes até conseguir dizer alguma coisa. Fiquei completamente sem palavras.
Olhai novamente e mais atentamente para o parque, onde estavam ainda mais crianças do que da última vez. Tentei compreender o ponto de vista da rapariguinha. Oh meu Deus, como era verdade o que ela me tinha escrito! Crianças de raça branca batiam nos de raça negra, chamavam-se nomes uns aos outros, os pais também discutiam, fugiam literalmente uns dos outros, chegando mesmo a notar-se uma espécie de duas manchas, uma negra e uma branca, uma do lado direito do parque, outra do esquerdo. Senti-me como que um cego.
- Pois, tinha toda a razão. Como se costuma dizer o pior cego é aquele que não quer ver...
A rapariguinha, sem desviar os olhos do chão, assentiu com a cabeça. Não tive coragem para dizer mais nada, levantei-me e voltei para casa. Durante todo esse dia, esse longo e preguiçoso dia, não consegui pensar em mais nada senão naquele pequeno pedaço de papel.
Sofia A. Silva Mendes